Só quem sofre dessa anomalia sabe a dificuldade que passa. Os olhares tortos que recebe e os nomes maldosos. Nem me lembro quando fui diagnosticada, mas os sintomas são constantes. Coração acelerado por bobagens, expectativas insuperáveis, suspiros sem razão aparente e memórias nunca vividas criadas meticulosamente antes de dormir. As causas? Muito provavelmente as mesmas músicas que falam sempre das mesmas coisas, filmes da Disney vistos até a fita não resistir mais e várias pilhas de livros apaixonantes na estante. O tratamento? Geralmente um toque de realidade e decepções, que só tornam a coisa pior, fazer o que? Corações partidos rendem boas histórias, só para quem escuta é claro. Mas e a cura? É nessa hora que o médico sai da sala, anda até a família e com pesar diz:
- É crônico, sinto muito. Não há mais nada que possamos fazer.

Exagerado? É um dos sintomas. Mas não confunda essa anomalia com o brega, pois não estão entre os sintomas: grandiosas declarações em público, carros com loucuras de amor ou serenatas na janela. Não mesmo. Um romântico, é apaixonado pelos detalhes e se agarra a eles com todas as forças, é sonhador por natureza, sempre imaginando possíveis situações. Pois nunca se sabe quando irá surgir a oportunidade de recriar a cena daquele livro. Nunca se sabe quando algo extraordinário pode acontecer. Um estranho poderia muito bem virar a esquina agora só para esbarrar na garota por quem iria se apaixonar daqui um mês. Muito possível.

Mas a verdade é que o grande inimigo não é o romantismo, é a expectativa. Ela é traiçoeira como o mar que te conduz até a imensidão do azul pra te afogar nas suas próprias ondas. A expectativa é esperar pelo improvável e depositar nas pessoas uma responsabilidade que pertence à você. É voar alto demais e perceber que as asas não funcionam mais segundos antes de despencar. É ter que lidar com o fato de que os diálogos serão sempre mais interessantes no cinema, que a rosa azul que você viu outro dia não vai ser um presente seu e que aquele texto que você queria tanto que te escrevessem nunca vai chegar. Mas ele continua lá, o romantismo não morre em meio a decepção, muito pelo contrário, ele queima ainda mais. A dor, até ela se torna bonita também, o sentimento vira poesia, música, história...Intensidade é o sinônimo perfeito, mas às vezes, ela consome por dentro.

E ao recém chegado, não se assuste, você não é o alvo do meu romantismo. Será sempre assim, com ou sem você. Mas a gente aprender até onde pode ir depois de um tempo. Aprende a colocar pelo menos um dos pés no chão, caso contrário, não seríamos nós mesmos. Sensíveis e fortes. Apaixonados e contidos. E não pense menos de mim, não me vitimize. Essa anomalia nunca foi mais forte do que eu. Não preciso ser salva da torre, o castelo é todo meu. Não saia correndo com a espada na mão, já derrotei muitos dragões sozinha. Não me acorde com um beijo, eu não caí na dá bruxa má. E não me venha com conto de fadas,eu já li os irmãos Grimm. Mas pode trazer o ''se cuida'' na despedida, o filme que te fez lembrar de mim naquela tarde de domingo e o verso que você fez às duas da manhã. Porque o maior sintoma dessa anomalia é estar sempre apaixonado, mesmo que não tenha ninguém por quem se apaixonar. 






Eu podia ouvir o ruído do motor dos carros lá fora. O clima frio atraía cada vez mais pessoas para dentro do café. Estava cheio, do meu lado esquerdo uma garotinha de cabelo escuro reclamava com o pai sobre algo que não pude escutar. O balcão estava repleto de pessoas ansiosas pelos seus pedidos. Ao fundo uma fila pequena se formava perto de uma daquelas máquinas de música, os clientes se revezavam para escolher a próxima canção. O senhor sentado algumas mesas a minha frente fumava um charuto grande, apenas seus cabelos grisalhos seriam capazes de revelar sua idade. Ele olhava para os lados como se precisasse ter certeza de que ninguém o observava. Encarei-o. Ele parecia preocupado, quase em alerta. Quando seus olhos se viraram na minha direção eu pude jurar que o reconheci. Afastei o pensamento. Ele me encarou de volta e com o terno preto e os sapatos perfeitamente engraxados se levantou e foi se desvencilhando das pessoas ao redor até chegar a saída, onde me lançou um olhar que não pude decifrar e então atravessou a porta. Fui tirada do meu devaneio com a voz da garçonete:
- Com licença?
- Me desculpe, aqui está! - entreguei o dinheiro a ela e levantei.
O ar do lado de fora era quase todo feito de fumaça, a rua totalmente deserta era repleta de carros estilhaçados. O céu tinha uma tonalidade estranha, como se o sol se recusasse a se por totalmente. Eu podia ver minha própria respiração se formando em frente ao meu rosto. Me encolhi e puxei meu casaco para mais perto. O vento cantava nos meus ouvidos. Um gato passou correndo por mim e se escondeu embaixo de uma lata de lixo no meio da rua. Enquanto caminhava pela calçada quebrada avistei uma figura a alguns metros. Um garoto alto estava parado entre mim e o próximo quarteirão. Seu cabelo era de um dourado brilhante, os fios ondulados caiam por seu rosto fazendo com que eu não pudesse vê-lo completamente. Ele vestia uma calça escura simples e uma blusa branca fina. Estava descalço mas não parecia sentir frio. Eu parei. Ele me encarou e por um instante pensei que pediria por ajuda, ao invés disso ele se virou e correu em direção a uma ponte à nossa frente. O garoto parou, de costas ele parecia apenas contemplar a vista do rio verde. Comecei a caminhar em sua direção enquanto tentava ignorar o coração martelando cada vez mais rápido no peito. De frente para o rio ele se apoiou na barra de ferro e subiu na grade. Ele parecia calmo, impassível com a minha presença. Até que, com um equilíbrio incrível e ainda em cima do parapeito ele se virou de frente para mim. Nos encaramos. Seus olhos não desviaram dos meus. Nenhum traço de desespero passou por seu rosto, nenhuma emoção. O mundo parou. O silêncio pairou sobre o momento. Nem mesmo o som do vento podia ser ouvido, apenas sua respiração, forte e controlada. Então o garoto de cabelos dourados abriu os braços e, de olhos fechados, caiu direto para a escuridão do rio.






Eu não sei amar pouco. Não sei como dar só um pedacinho de mim, e também não espero receber isso de alguém. Eu nunca me contentei com pouco. Talvez seja o mau do sol em capricórnio, ou para você que acha essa coisa de signo uma total roubada seja só ambição mesmo. Mas a verdade é que eu não quero me conter, me privar de nada, refletir até onde eu posso ir. Não quero me limitar. Não tenho paciência para filtrar minhas palavras ou me perguntar se eu deveria mandar aquela mensagem ou não, se deveria chamar para sair ou não, se eu deveria falar sobre minhas milhares de teorias malucas sobre o universo ou se tudo isso é demais. Mas sou eu, talvez eu seja "eu demais", talvez eu seja "amor demais''. Me desculpe se eu transbordo. Inclusive, às vezes eu mesma acho que sou pequena demais pra todos esses pensamentos dentro de mim. Um dia desses eu me perco em mim mesma.

Não se engane, a sensação de indiferença que posso causar de imediato é só parte do autocontrole. Não quero assustar, chegar do nada. Eu não sou de colocar só o pé na água, eu vou devagar e quando vejo já estou submersa, o problema é que pular na piscina sem saber nadar geralmente causa mais afogamentos do que nados sincronizados. Às vezes o amor não mergulha fundo o bastante porque tem medo do mar. Mas quem o culparia? A imensidão é assustadora para quem só nadou em águas rasas. O grande problema é que a maioria não parece disposta a ir fundo o bastante. Eu sei, é mais fácil voltar a superfície sem nenhum problema quando não se vai tão longe. Uma vez li em algum site bobo que o amor é como duas pessoas segurando um elástico, quem solta primeiro machuca o outro. Eu poderia dizer que quem largou tudo fui eu, mas minhas cicatrizes me entregariam totalmente.

Não sou mentirosa, já invejei todo esse desapego. Já tentei seguir a linha de quem não se importa. Talvez você pense que a partir daí parei com o meu romantismo crônico e vivi uma vida muito mais feliz sem frustrações, certo? Errado, muito errado. Às vezes fico pensando como duas pessoas tão diferentes podem ter, em algum ponto dessa vida maluca, seus caminhos cruzados. Não seria mais justo se o destino só colocasse na nossa frente quem está na mesma sintonia? Acho que ele tem um fraco pelo caos. Mas de bagunça aqui dentro já basta a minha. Acontece que eu já me culpei por sentir demais, assim como já condenei quem sente de menos. Não, eu não sou a senhorita dona da razão, nem ao menos sei o que estou fazendo, mas depois de um tempo percebi que não se deve pedir por amor. E mesmo assim, depois de tantos desencontros meu coração ainda é ruim de mira. Ruim pra cassete se quer mesmo saber. E talvez a parte mais complicada de tudo é que eu não tenho a menor ideia de como consertar isso. Não sei se tudo não passa de imaginação minha ou se é real. E se não for recíproco, ainda é amor?

Na verdade, o que sempre me gerou um interessante particular é: o que exatamente nos faz apaixonados? Talvez para você sejam os filmes favoritos em comum ou até mesmo aquele hobby que você sempre quis ter, mas não investiu por preguiça. E eu? Eu me apego demais aos detalhes, ao jeito que ele sorri com o rosto todo, como o cabelo dele fica bagunçado quando ele o balança ou o som que a risada dele tem. Talvez eu preste atenção demais a essas pequenas coisas e esqueça do mais importante: reciprocidade. Dessa vez eu jurei que estava no controle, mas eu me precipitei. Eu abri a porta. O amor entrou e a deixou aberta. Eu pensei que era cautela, mas então ele saiu e descobri que na verdade ele nunca tinha pensado em ficar. O amor veio de repente. Sem avisar. Chegou assim: aos poucos e de uma hora pra outra me fez duvidar, negar, odiar, desacreditar. O amor analisou o terreno para encontrar o ponto de partida no meio da estrada. O amor me tirou do chão pra depois me derrubar. Então foi aí que eu descobri que o amor na verdade não era amor. O amor, nunca foi amor. Ainda bem que não era.






Ele tem um cheiro bom que fica em todas as suas roupas, te faz dar risada das piores piadas e te torna uma pessoa mais distraída quando está perto de você. Ele te conta coisas que nunca disse a ninguém, fala dos sonhos que tinha quando criança e de todos os poemas que leu em um livro aleatório. Ele fala sobre qualquer coisa, desde reality shows sem graça até teorias sobre viagens no tempo. Quando ele fala com você, sempre parece a primeira vez. Ele tem um coração tão grande que quase não cabe no peito, mas não sabe disso. Te abraça forte do nada e fica assim por vários minutos só sentindo a sua respiração. Ele tem uma intuição que não pertence à este mundo, ninguém deveria ter tal poder. Sabe quando você não está bem antes mesmo de te ouvir dizer isso e sempre te alerta sobre a presença de possíveis aproveitadores ao seu redor, e ele nunca erra!

Ele sempre te diz o quanto é bonita e ainda fica vermelho quando ouve o mesmo de você. Quando se propõe a fazer alguma coisa, vai até o fim. Ele sabe o que quer, e sempre consegue. Mas às vezes precisa de um empurrãozinho seu para dar o primeiro passo. Te liga mesmo não tendo nada pra dizer, mesmo que apenas por dois minutos, só pra escutar a tua voz. Ele é a melhor companhia para suas maiores loucuras, mas também se aventura em um filme na sexta-feira à noite. É uma total bagunça, por dentro e por fora. Mas tudo bem, você sempre se deu bem com o caos. Ele não para quieto por um segundo, e isso te irrita demais, mas aí ele diz o seu nome enquanto sorri jogando a cabeça pra trás, e seus olhos viram uma meia lua que te faz esquecer completamente o que estava falando. Ele esquece de compromissos importantes e tem um sério problema em lembrar de datas comemorativas.

Ele não tem rosto, nome ou endereço. Ele pode ter olho azul, verde, castanho claro ou cabelo enrolado. Você não sabe se ele faz faculdade de engenharia, arquitetura ou se ganha a vida tocando violão nas ruas da cidade. Se ele tem dois irmãos ou morra no Rio de Janeiro. Se trabalha na loja do pai ou no restaurante da esquina. Você não sabe se ele brigou com a melhor amiga ontem ou se foi na casa dos avós no domingo à tarde. Se ele prefere sorvete de creme ou chocolate, azul ou vermelho, verão ou inverno. Não conhece os seus artistas preferidos ou a música que ele está escutando no momento. Você não sabe se ele gosta de ir à praia ou prefere fazer uma trilha com os amigos. Se gosta de terror, ficção científica ou de nenhum dos dois. Ele pode ter nascido em outro país e já ter conhecido metade do mundo. Pode ter entrado no Louvre, caminhado pela Times Square e visitado o Coliseu. Talvez ele tenha parado de estudar pra formar uma banda ou tenha descoberto uma paixão por física quântica. Você não sabe nada sobre ele, e ainda assim, ele é o desconhecido que você mais quer conhecer no mundo.




Aposto que você perceberam o quanto o blog está diferente.. e também perceberam o quanto estamos ausentes. 

São fases!

Graças a Deus, todos nós colaboradores ingressamos no ensino superior. Então, fica difícil estar atualizando aqui. 

Mas, acreditem! 

Vamos tentar sempre deixar algo para você, uma crônica ou indicação.

Quem sabe tudo se ajeita no próximo verão.

Obrigada por tudo.