Umas semanas atrás eu estava no meio de uma crise existencial que mais parecia um horizonte de areia movediça. E no meio dela, eu assisti a um episódio de Grey's Anatomy.
Sobre o que falava, exatamente, o episódio? Não me lembro. Mas ele trouxe a histeria das epifanias de volta aos meus pensamentos tumultuados.
Nós assistimos à vida de pessoas excepcionais. Incríveis. Acima da média. Geniais. Mais bondosas e cristãs que o próprio Cristo. Lemos sobre eles também. Acabamos escrevendo sobre os mesmos e, enfim, estamos presos em um ciclo de admiração ao irreal que acaba com a autoestima de pessoas normais.
Aos olhos dos outros, eu sempre fui essa pessoa excepcional. Obviamente, quando a visão é limitada, a opinião também se torna, e para aqueles que só enxergavam minha posição como melhor aluna da sala/escola durante toda a minha vida escolar, eu era mesmo incrível. E para eles, as expectativas eram as maiores possíveis. Eu deveria ser tão perfeita quanto era nas provas bimestrais em todos os âmbitos da minha vida, certo? Com certeza eu seria a mais bem sucedida da turma. Na melhor faculdade. Médica ou engenheira, é óbvio, porque jornalismo é puro desperdício de cérebro para você, Camille.
Quem já esteve nessa situação de ser o exemplo para todos os outros pais e mães da escola, sabe como cada elogio mais se assemelha com uma corda no seu pescoço. 
Você não é perfeita. Tem um milhão de problemas e defeitos como qualquer outra pessoa ali. Passa noites chorando e tem vontade de desaparecer quando tudo começa a dar errado. Mas ninguém vê isso. Ou como você é desastrada e derruba e esbarra em tudo e isso não é fofo como nas comédias românticas. Ou além, que você tem problemas de socialização que custarão algumas centenas na terapia anos mais tarde.
E a lista só aumenta. Porque ela é gigante. Para você ou para o Bill Gates. 
Mas ele é tão melhor que todos nós, né? Ele tem uma fortuna em bancos espalhados pelo mundo. É um filantropo. Tem a inteligência que milhões se endividariam se pudessem comprar no Ebay.
Aquela protagonista do último livro que você leu também, né? Além de ter a beleza que nós, reles mortais, tentamos comprar na Sephora, é a melhor da turma, conseguiu uma bolsa de estudos em Stanford, é engraçada, bem informada, independente e ainda namora o cara mais gato da cidade. Os pais a apoiam em tudo, dinheiro nunca é um problema, a gasolina do carro nunca acaba e o cabelo dela não tem sequer uma ponta dupla - mesmo sendo todo descolorido. 
Será que, no fundo, nós temos mesmo essa consciência de que qualquer cidadão desse mundo tem uma vida tão torta quanto as nossas, independente das proporções? 
Porque naquela minha semana de crise existencial, eu não tinha consciência disso.
Eu só conseguia me questionar por que eu não conseguia ser tão incrível e maravilhosa quanto aquelas outras pessoas. Isso tudo porque tendemos ao exagero quando algum plano dá errado - e no meu caso, acabou dando certo, no fim das contas. 
Porque eu cresci ouvindo como era e continuaria sendo genial. E me esforcei para ser o que os outros acreditavam piamente que eu era. 
Porque, no fim, eu só queria ser tão medíocre quanto qualquer outra pessoa. Sempre quis ser normal. Ficar de recuperação em matemática. Tomar uma advertência por conversar demais na sala de aula. Ficar para fora da sala por demorar demais no intervalo. As pessoas que os faziam eram as incríveis aos meus olhos. Elas eram mais livres, felizes e relaxadas do que eu.
Mas eu não soube ser assim. Nunca. Nem mesmo por um dia. E quando eu o fui, não sabia como sê-lo. 
E então Grey's Anatomy me fez enxergar como nós sempre almejamos a vida perfeita dos outros quando, para os outros, a vida perfeita é justamente a nossa. 
O que é ser incrível, genial, excepcional? De repente muitos falam que eu sou tudo isso aí, mas por que não me sinto nada disso? 
Talvez porque seja ok ser normal. Ordinário. Na média. Sem nada de especial. Apenas o suficiente. Ou nem mesmo isso.
Porque está tudo bem em nunca ganhar um Oscar ou um Nobel da Paz ou da Medicina.
Porque não há nada de errado em não participar de uma Olimpíada.
Enfim, definitivamente existe alguém por aí que admira sua escrita, oratória, aqueles desenhos que você arrisca sem confiança, suas habilidades com exatas, a compaixão intrínseca, as fotografias ou qualquer outra partezinha da sua vida que você trata como mais uma paixão, mas que é objeto de suspiros para que alguém diga o quão incrível e excepcional você é.
Dois lados irônicos de uma moeda que equilibra o quão normais e perfeitos todos nós somos, dependendo da perspectiva, e como o vício da moeda a coloca sempre do mesmo lado aos nossos olhos.
No fim do dia? A protagonista do livro não tem nenhuma ponta dupla porque a mesma gasta uma fortuna para manter o aplique.

3 Comentários

  1. Nossa, adorei o texto!
    De verdade.
    Me identifiquei parcialmente em muitos pontos.
    Continue a escrever coisas assim.

    Abraços!

    Pedrim
    http://www.pedrimoliveira.blogspot.com.br/

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  2. Camille,

    Adorei seu texto... acredito que em alguns momentos da nossa vida todos passamos por uma crise existencial que nos faz querem ser "normais". Mas o que é ser normal? Ainda não descobri...

    Beijos

    http://meninasnaliteratura.blogspot.com.br/

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  3. Eu as vezes passo por essas crises existenciais. Acho que todo mundo passa né! Mas acho que cada um tem que encontrar um ponto de equilíbrio.
    Adorei o texto.Beijo.

    http://estantelivrainos.blogspot.com.br

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